segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Gramática nível baby & Interpretação

Calligaris, Contardo. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.

Capítulo 4.

 A ADOLESCÊNCIA COMO IDEAL CULTURAL

Um lado exasperante da adolescência é que é difícil encontrar uma escolha adolescente que não seja a realização do sonho dos adultos.1 ( divida o período. Quantas oraçoes?) É quase impossível 5 ( qual é o sujeito de 'quase impossível'?), para o adolescente, se afastar da interpretação do desejo adulto, por duas razões. Primeiro, porque o acesso à idade adulta 2 em nossa cultura não é regrado por um ritual 3, mas depende de um olhar, de um consenso 4 que nem sabe articular suas condições. Portanto, é necessário procurá-las 5 ( dê a função morfológica e sintática) interrogando e interpretando o desejo dos adultos. Segundo, por uma espécie de pecado original próprio a uma cultura que idealiza a autonomia. Mesmo se o comportamento adolescente fosse totalmente regrado pelo plano de não mais depender do reconhecimento dos adultos, mesmo se isso fosse possível (e talvez se torne possível, por exemplo no grupo adolescente), a autonomia assim realizada ainda seria o sonho dos adultos para o adolescente. Aliás, esse é o sonho de liberdade por excelência, o sonho que acompanha qualquer vida adulta contemporânea nas formas mais variadas, do desejo de férias à tentação de cair fora. Verifica-se então o paradoxo seguinte: a adolescência, excluída da vida adulta, rejeitada num limbo, acaba interpretando e encenando o catálogo dos sonhos adultos, com maior ou menor sucesso. Mas, através de todas as suas variantes, ela sempre encarna o maior sonho de nossa cultura, o sonho de liberdade. Ou seja, por tentar dispensar a tutela dos adultos, a rebeldia adolescente se torna uma encenação do ideal cultural básico. Por esse motivo, as condutas adolescentes em todas as suas variantes se cristalizam, se fixam e se tornam objetos de imitação. Tudo leva a fazer da adolescência um ideal social. É até bem possível que a adolescência surja na modernidade como ideal necessário. Logo, que a adolescência como ideal seja quase um corolário do mundo contemporâneo. Mas, além dessa possibilidade (que examinaremos no Capítulo 5), há outras cumplicidades que, no mínimo, colaboram em tal idealização da adolescência. Os adolescentes, como vimos, se reúnem em grupos que podem ser mais ou menos fechados, mas sempre apresentam ao mundo uma identidade própria, diferente do universo dos adultos e dos outros grupos. No mínimo, são comunidades de estilo regradas por traços de identidade claros e definidos, pois os membros devem poder pertencer a elas sem ter de coçar a cabeça se perguntando: "Mas o que será que os outros querem para me aceitar?" Os grupos têm portanto em comum um look (vestimentas, cabelos, maquiagem), preferências culturais (tipo de música, imprensa) e comportamentos (bares, clubes, restaurantes etc.). o resultado disso é que cada grupo impõe facilmente a seus membros uma conformidade de consumo bastante definida. Por isso mesmo, todos os grupos se tornam também grupos de consumo facilmente comercializáveis. Os adolescentes, organizados em identidades que eles querem poder reconhecer sem hesitação, se tornam consumidores ideais por serem um público-alvo perfeitamente definido. A adolescência e suas variantes são assim um negócio excelente. O próprio marketing se encarrega de definir e cristalizar os grupos adolescentes, o máximo possível. Os grupos, nascidos como amparo contra a moratória imposta pelos adultos, se constituem em ideais para os adultos justamente por serem rebeldes. Ao mesmo tempo, esses grupos são culturalmente exaltados pelo marketing, que tem todo interesse em apresentá-las como coesos, catalogando os apetrechos necessários para seus membros, comercializando as senhas de reconhecimento e todos os traços do look suscetíveis de circular no mercado. Esses looks que surgiram como "rebeldia" são então propostos como ideais para aumentar a adesão de seus membros, ou seja, para seduzir os adolescentes que chegam ao mercado dos grupos ou transitam de um grupo para outro. Cada look é propagandeado e idealizado por sua comercialização. Cada grupo e a adolescência em geral se transformam numa espécie de franchising que pode ser proposta à idealização e ao investimento de todo mundo, em qualquer faixa etária. Se a adolescência encena um ideal cultural básico, é compreensível que ela se transforme num estilo que é cool para todos. Na idealização comercial e para maior proveito dos empresários da adolescência, praticamente todos os estilos adolescentes (seus produtos, seus apetrechos) são oferecidos e vendidos aos adultos, magnificando um mercado já interessante em si. Desde os anos 80, surge uma verdadeira especialidade do marketing da adolescência. Sua relevância está nas proporções do mercado dos adolescentes: eles são numerosos e dispõem de cada vez mais dinheiro. Mas interessam ao mercado também pela influência que exercem sobre a decisão e a consolidação de modas, que transformam os modelos de consumo de muitos adultos. A adolescência, por ser um ideal dos adultos, se torna um fantástico argumento promocional. Até aqui pensávamos que havia uma revolta dos jovens contra sua exclusão da sociedade dos adultos. E acrescentávamos que as formas dessa revolta podiam coincidir com ideais adultos por duas razões: porque o ideal cultural dominante é, em nossa cultura, a insubordinação e porque, ao se revoltar, os jovens ainda estariam tentando agradar aos adultos, ou seja, realizar algum sonho deles. Agora podemos perguntar se a adolescência não surgiu justamente porque os adultos modernos precisaram dela como ideal. Será que a adolescência não foi provocada, impondo a moratória e suscitando a rebeldia, justamente para que encenasse o sonho de idiossincrasia, de unicidade, de liberdade individual e de desobediência que é próprio de nossa cultura? Será que a adolescência não veio a existir para o uso da contemplação preocupada, mas complacente, dos adultos? https://chasqueweb.ufrgs.br/~slomp/edu01011/calligaris-adolescencia-cap-4.pdf

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