Interpretação de texto e gramática.
13/08/2016 01h00
Lula emerge como herói do povo em livros didáticos
de diversos autores –e já se editam os que narram o impeachment de Dilma como
um "golpe das elites". Sobram livros escolares que encontraram na
Cuba castrista o paraíso terreno. Numa questão do Enem, aparece uma
justificação "moral" para o terror jihadista. Textos pedagógicos
pregam a censura à imprensa, na forma ritualizada do "controle social da
mídia". A linguagem sectária do racialismo perpassa inúmeros materiais
escolares. Livros e textos destinados a jovens estudantes apresentam a família
nuclear como ferramenta de opressão da mulher. Na versão original das bases
curriculares do MEC, abolia-se o ensino da história "ocidental". A
marcha dos militantes políticos sobre a escola produziu, como contraponto, o
movimento Escola Sem Partido. Contudo, as aparências (e os nomes) enganam: nesse
caso, o antídoto é, ele também, um veneno. O Escola Sem Partido patrocina um projeto de lei
destinado a afixar nas escolas um cartaz com os "deveres do
professor" que protegeria os estudantes da doutrinação ideológica e da
propaganda partidária. Por si mesma, a ideia de uma intervenção estatal
explícita, ameaçadora, contaminaria as relações entre alunos e professores no
ambiente escolar. Dos seis itens do cartaz, quatro parecem óbvios a mentes não
hipnotizadas pelo espírito doutrinário –mas, efetivamente, abrem espaço para
infinitas interpretações subjetivas. Nos dois outros, revela-se um projeto tão
nocivo quanto o dos militantes políticos das mil e uma causas.
O item quatro determina que, "ao tratar de
questões políticas, socioculturais e econômicas", o professor exibirá,
"com a mesma seriedade", as "versões concorrentes". Há, aí,
sobretudo, uma incompreensão da natureza do processo de ensino e aprendizagem.
Embora a polêmica sobre valores tenha seu lugar na sala de aula, a escola não
existe para cotejar as contraditórias "respostas certas" a temas
desse tipo. Substituir a "verdade" autoritária do doutrinador pelo
"Fla-Flu ideológico" pode até funcionar na imprensa pluralista, mas
nada resolve no campo da educação. De fato, a missão do professor é ensinar a
formular as perguntas pertinentes –isto é, a inscrever os dilemas humanos nos
contextos históricos e sociais apropriados.
Isso não é tudo. O que significa cotejar versões
quando se trata de uma "questão sociocultural" como a teoria da
evolução? Na esfera da ciência, nem tudo é polêmica. Será que o Escola Sem
Partido almeja que se ensine, "com a mesma seriedade", a "versão
concorrente" que é o criacionismo?
O véu cai quando se examina o item cinco. De acordo
com ele, "o professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos
recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias
convicções". Como "os pais" formam um universo muito
heterogêneo, a regra proporcionaria um "direito de veto" à família
mais tradicionalista. Na prática (oh, surpresa!), o padre ou pastor locais
exerceriam um poder censório absoluto sobre os professores, subordinando a
escola aos mais rudimentares anacronismos e preconceitos.
Na democracia e na república laica, o compromisso
essencial da escola não é com os chamados "valores da família", mas
com o direito dos alunos à cidadania. O alicerce de princípios da escola são os
direitos humanos universais, inscritos na Declaração de 1948, que inspiram as
constituições democráticas. A igualdade de direitos entre homens e mulheres, o
respeito a diferentes orientações sexuais, o repúdio a preconceitos raciais e a
proteção de minorias religiosas não devem ser descritos como "doutrinação
ideológica" –e não são artigos negociáveis no balcão das "convicções
dos pais".
Previsivelmente, a fúria dos militantes políticos
irriga as sementes de uma fúria simétrica. Escola Sem Partido, sim. Mas, ao
mesmo tempo, Escola Sem Igreja.
Nenhum comentário:
Postar um comentário